Quarta

Chegou em casa e inexplicavelmente não conseguia mais se sentir feliz como horas atrás sentira. Algo supostamente impossível, dados os acontecimentos recentes. Afinal, teria sonhado ou o lápis mágico realmente escrevera ‘feliz’ em sua testa, dando-lhe assim tamanho poder?! E se não fosse sonho, como explicar, então, o vazio que agora carcomia suas entranhas tal como ácido a dissolvê-las dolorosamente e lançava aquele gosto de bile rumo à sua boca?

Olhou-se no espelho. Lá estavam dois grandes olhos pretos que mergulhavam em si mesmos infinitamente buscando algum aprofundamento nesta imagem que os fizessem ver algo além da eterna myse en abîme em que se achavam. Seu rosto de cenho franzido articulava-se magistralmente com as grandes olheiras, pontos amarronzados quase inerentes a seu ser. Às vezes pensava em dar cabo delas, mas muito provavelmente jamais conseguiria. Criara um avatar para si, e todo os elementos ali presentes e dispostos eram parte integrante deste arranjo identitário habilmente formulado ao longo dos anos. Jogasse fora parte de tudo isso e a brincadeira de montar recomeçaria. E, não, ela não queria voltar à fase lego de seua vida. Ao menos, não agora.

Estava bem dizer satisfeita com o rumo das coisas. Não tinha porque reembaralhar tudo de novo, mais uma vez. Daí sua inquietação ante o sentimento de tristeza misturado com as sensações de impossibilidades.

- traga-me as anfetaminas!, diria num tom austero, caso tivesse uma criada. Estaria vestida em robe de chambre, sentada de costas para a serviçal em um divã de veludo branco macio. Tudo que a empregada veria da patroa seria um dedo indicador em riste a apontar na diração dos comprimidos.

Sem água, engoliria a drágea e restaria a tarde ali para vislumbrar a mudança da luz com o passar das horas e seus efeitos nos vitrais da janela do quarto. Adormeceria naquela posição, embalada pelos tic-tacs arrogantes e renitentes dos três relógios da parede à sua direita. Ponteiro-a-ponteiro seu cérebro absorveria a mecanicidade do som até que seus olhos não mais focassem cousa alguma.

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